O poker é um jogo que te exige muito mentalmente; você precisa captar muitas informações num curto espaço de tempo e tomar decisões quase instantâneas. Manter a concentração é fundamental.
No início do mês passado estive em Las Vegas para participar de minha primeira World Series, a maior série de torneios de poker do mundo. E isso não é exagero. (mais…)
O torneio de poker no Blogbeach 2010 foi bem legal, apesar de não ter tido todos os jogadores que eu esperava, por motivos que não vêm ao caso mencionar.
Tivemos já na sexta-feira, dia 26/03, uma pequena prévia: 6 jogadores, buy-in de R$ 1, o vencedor levava tudo. E este blogueiro que vos fala ganhou este mini-torneio. Tá certo que os 5 outros oponentes já estavam alcoolizados, mas ninguém obrigou eles jogarem poker a dinheiro neste estado.
Numa da mãos eu ganhei somente por causa de minha leitura do vilão (no caso o meu amigo José Vitor, do blog Direito Digital): dois overbets, no flop (x J K) e no turn, eu com 2nd pair (JJ) só pagando. Tava na cara que ele tinha um jogo fraco quando viu o J e o K no flop e tentou me expulsar da mão. Foi um dos maiores pots que levei na noite.
A sorte também ajudou, quando fui all-in com AT num board T J Q e o Loch, do blog Corto Cabelo e Pinto pagou com AK. Um K salvador no river me deu a sequência e splitou o pot.
Loch, Luquinhas, Vinícius Malavolta, José Vitor, eu e Holy. Foto: tirada do flickr do José Vitor
A mão vitoriosa. Foto: Camilla Morselli
No sábado o torneio “oficial” teve buy-in de R$ 10, contou com 7 jogadores e premiava os 3 primeiros. Neste eu fiquei em 3º, numa jogada que foi precipitada, devo admitir. E detalhe muito bacana: o heads-up final foi feito entre as 2 mulheres que participaram do torneio: a Kakah, do blog Meu Veneno, e a Camilla, namorada do Biso, do Haznos. A Kakah sagrou-se campeã, chegando no heads-up final com praticamente 80% das fichas em jogo. Runnou muito hot a mulher!
Todas as fotos tiradas do flickr do José Vitor.
Bacana foi perceber que todos se interessam pelo jogo e procuram aprender mais. Várias pessoas vinham falar comigo sobre poker, em diversos aspectos. Foi bastante divertido, espero voltar ano que vem para, quem sabe, organizar um torneio ainda melhor.
O poker está se popularizando no Brasil, isso é fato. As etapas da BSOP vêm batendo recorde atrás de recorde de participações este ano, a TV Bandeirantes começou a exibir o programa Pôquer das Estrelas, e venho percebendo uma aceitação cada vez maior do nosso esporte pela sociedade. É claro que ainda há muito a ser feito, mas isso é algo a ser conquistado aos poucos.
Porém, com a popularização do esporte, chegam junto os “entendidos” de poker. Há algum tempo foi lançado o site The Social Poker, que nada mais é que uma sala de poker online via browser, usando Flash como base tecnológica.
A iniciativa é louvável, mesmo sabendo que é só play money. Mas não dá para engolir coisas como isso que eu li no Twitter:
Khaudex1 fez uma jogada incrível no #thesocialpoker e registrou tudo! Confiram: http://youtube.com/?v=YT3TPPB_sls #poker #uau
Meu desconfiômetro apitou na hora: esse povo não é especialista em poker, apesar de terem criado um site de jogo. Como o YouTube é bloqueado no meu trabalho, só pude ver a mão de noite.
E minhas suspeitas se confirmaram. Nem precisa clicar no link acima, caro visitante, fiz questão de colocá-lo aqui no post:
E a hand history, para quem não pode acessar o YouTube por qualquer motivo que seja:
The Social Poker No Limit Hold’em, $100.00 BB (4 handed) saw flop | saw showdown
Total pot: $1100 Main pot: $1100 between SB and Hero, won by Hero
Results:
Hero had A♥, A♣ (Four of a kind, Aces).
SB had 6♦, 3♦ (Two pairs, Aces and sixes).
Outcome: Hero won $1100
Uma vez que não tenho maiores informações sobre os jogadores, comentarei aquilo que pude depreender do vídeo. Para início de conversa: par de Ás no botão e o Herói só dá call? Quando você tem uma mão premium, você quer extrair o máximo que puder de fichas de seus adversários e, ao mesmo tempo, proteger sua mão dos limpers que querem ver um flop barato. Afinal de contas, a mão deles pode melhorar com o flop. O correto seria um raise em torno de 3 big blinds, algo como 250 ou 300 fichas.
No flop o Herói acertou o set e só perde para um improvável 42. Tanto o Small Blind quanto o Big Blind dão check, indicando que ou não acertaram um par ou ficaram com medo do Ás no board. Um bet de metade do pot é uma aposta razoável.
O Ás no turn fez com que o Herói tenha nuts na mão, a única hipótese de derrota sendo um improvável Straight Flush que possa ocorrer no river. Agora a preocupação deixa de ser a mão dos adversários e sim o quanto apostar para extrair o máximo de valor desta mão. Uma aposta menor, entre um terço e metade do pot é uma boa pedida.
O river nos dá uma blank. Hora de fazer outra aposta, talvez algo entre metade e dois terços do pot. Outra possibilidade seria um shove, para dar a impressão que estamos blefando e querendo levar o pot.
Porém, no caso dos adversários serem ultra tights, o raise pré-flop poderia tê-los assustado e fazê-los largar a mão, limitando os ganhos do Herói. Neste caso não há muito o que fazer, só esperar uma outra oportunidade para tirar suas fichas.
O que leva a uma consideração: contra adversários muito conservadores você precisa agredir mais vezes, mesmo com mãos marginais, e ir tirando as fichas deles aos poucos; ao encontrar resistência, pise no freio caso não tenha um bom jogo ou faça com que eles se atolem quando você tiver um monstro na mão.
O bom de blogs é que você pode ter toda uma abordagem profissional mas se permitir um ou outro post mais pessoal de vez em quando.
Pois é, o post de hoje é um belo brag: fiz o meu primeiro e sonhado Royal Straight Flush!
Se você não sabe do que estou falando (tem um post meu falando sobre o ranking de mãos, é só ler aqui), eu explico novamente: este é o nome particular da melhor mão possível no poker, aquela que, independentemente do que seu adversário tiver, você ganha. Trata-se de um straight flush, uma sequência com cartas do mesmo naipe, indo do 10 ao Ás.
E a hand history:
PKR Pot-Limit Hold’em, $100.00 BB (6 handed) – PKR Converter Tool from FlopTurnRiver.com
Calma, o blog ainda não morreu. Só que como eu preciso trabalhar e conciliar o poker online (que precisa ser praticado sempre [o que me lembra que não jogo desde a Campus Party, mas tive motivos para isso]), resta-me pouco tempo para escrever algo. Como os posts precisam de bastante estudo (para eu não escrever nenhuma besteira), a taxa de updates é relativamente pequena. Mas não se preocupem, mais posts virão, só precisam ter paciência.
Enquanto isso, farei alguns updates do que tem acontecido:
a Campus Party foi ótima, revi vários conhecidos, conheci gente nova, enchi a cara na Augusta e me diverti muito. E o poker online foi bem, obrigado: eu QUADRUPLIQUEI meu bankroll durante o evento! (Não que tenha sido grandes coisas, já que estou reconstruindo meu bankroll do zero, mas dá uma puta confiança!)
o Blogbeach 2010 foi confirmado e o Mr. Poker estará por lá! Ano passado eu pude conferir a popularidade do poker entre os blogueiros brasileiros, então este ano a coisa será profissional: ao invés de jogar por pura recreação, teremos um torneio (pago, mas será pouca coisa), no estilo sit ‘n go. Estou apenas acertando alguns detalhes na estrutura, e talvez faça uma pesquisa para determinar alguns fatores.
nesta quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010, chegou meu passaporte vindo do consulado americano, com um belo visto de entrada nele… Ou seja: Mr. Poker is going Vegas! Eu começarei um estudo intensivo, tanto para torneios quanto para cash game (aproveitando que meus livros do Dan Harrington sobre cash game chegaram da Amazon), porque eu pretendo jogar na World Series of Poker!
E é isso, amigos, até a próxima! Shuffle up and deal!
Aos nossos leitores que estiverem em São Paulo nesta semana, aviso que estarei na Campus Party 2010, que acontece de 25 a 31 de janeiro no Centro de Convenções Imigrantes.
Por questões logísticas, não levarei minha maleta de fichas para lá, mas o baralho já está na mochila. E estou considerando jogar um cash game em alguma casa de poker paulista pelo menos uma noite, caso alguém queira ir para o feltro comigo.
Se você for campuseiro, apareça na área de blogs e dê um oi para mim.
Veremos agora um exemplo onde aplicaremos os conceitos abordados no post anterior, além de aproveitar a oportunidade para introduzir conceitos novos. Lembre-se: apenas farei uma breve introdução aos temas, você deve procurar se aprofundar neles por conta própria.
Situação: estamos na mesa final de um torneio 6-handed, todos já ITM (In The Money, gíria que indica que todos os jogadores restantes estão na zona de premiação). Os blinds são 4.000/8.000 e você tem um stack razoável, cerca de 40 BBs. Você recebe JJ (os naipes não importam aqui) e faz uma aposta de 22.000 fichas. A mesa roda em fold até o botão, que vai all in em 100.000 fichas, os blinds dão fold e a ação volta para você. Você sabe que esse jogador é tight, jogando apenas com mãos premium – AA, KK, QQ, JJ, TT, AK e AQs. E agora, o que você faz?
Antes de prosseguir, falarei rapidamente sobre o conceito de range de mãos, que nada mais é que especular quais mãos seu(s) adversário(s) pode(m) ter. É uma habilidade importante, que precisa ser praticada. Como o poker é um jogo de informações incompletas, você precisa de qualquer informação que seu adversário forneça – padrões de apostas, mãos anteriores – para definir com que mãos ele poderia apostar. Isso é importante, pois às vezes é possível desmascarar um blefe quando um adversário finge possuir uma mão que não esteja no range dele.
Outro conceito importante é o de classe de mãos. Ele é muito simples e ajuda a você definir melhor o range de seus adversários. Todos os jogadores, ao receberem suas cartas, podem ter apenas 3 classes de mãos: uma mão pareada, uma mão não-pareada e uma mão naipada. Cada uma dessas classes possui uma frequência relativa de aparecimento, resumida na tabela abaixo:
Classe de mãos
Frequência relativa
mão pareada (ex. 66)
6
mão não-pareada (ex. AK, T9)
16
mão naipada (ex. J♥ T♥)
4
Explicando a tabela: com 4 naipes, você possui 6 combinações diferentes de qualquer par:
6♣ 6♦
6♣ 6♥
6♣ 6♠
6♦ 6♥
6♦ 6♠
6♥ 6♠
De igual maneira, você possui 16 combinações de quaisquer duas cartas, sendo que 4 delas serão com o mesmo naipe.
Voltando ao exemplo: sabendo que temos um jogador sólido apostando all in, a tendência de boa parte dos jogadores é descartar JJ. Irei provar que esta jogada é errada.
Façamos as contas: você precisa dar um call de 78.000 num pot que já tem 134.000 fichas (os blinds, seu raise e o re-raise all in do vilão), o que te dá pot odds de 1,72:1 (aproximadamente 36,8%); se você tiver odds melhores que 1,72:1, você deve fazer esse call. Mas como fazer este cálculo?
Antes de mais nada, preciso avisar algo: este tipo de cálculo é quase impossível de ser feito na hora, sem a ajuda de ferramentas. Estudo de casos como este são feitos fora de jogo, para que o jogador aprenda a reconhecer padrões matemáticos que, por analogia, auxiliam a tomada de decisão.
Uma das ferramentas mais utilizadas para estes cálculos é um programa gratuito chamado PokerStove, que pode ser baixado em www.pokerstove.com. Nele, iremos inserir nossa mão e o range de mãos que atribuímos ao nosso adversário mais cedo – relembrando: AA, KK, QQ, JJ, TT, AK e AQs, que será inserido no programa como TT+,AQs+,AKo.
TT+ – par de 10 ou melhor;
AQs+ – AQ ou AK do mesmo naipe;
AKo – AK de naipes diferentes.
Fazendo os cálculos, obtemos:
Ou seja: nesta situação, um par de valetes tem 44,2% de equidade, bem superior aos 36,8% dados pelos pot odds. O call é a jogada correta a se fazer.
Caso você queira se tornar um jogador de poker sério, precisa se familiarizar com estes cálculos quando estiver estudando. Acredite: todos os profissionais fazem isso.
Este é um post que estou há tempos tentando escrever, mas sempre que começo eu paro por algum motivo. Como é algo que ainda estou aprendendo, eu sempre posterguei, já que sou perfeccionista quanto aos assuntos que escrevo.
Porém, agora que percebi que a missão do blog é muito mais introduzir os assuntos do que me aprofundar neles (para isso há livros e fóruns na internet, use estes recursos sabiamente!), resolvi pincelar este assunto que é muito vasto.
A coisa mais básica que envolve a matemática no poker é a contagem de outs, as cartas que fazem o seu jogo melhorar. Exemplo simples: suponha que você tenha 8♣7♣ e no flop apareçam duas cartas de paus. A pergunta é: quantas cartas podem fazer este jogo virar um flush?
Vejamos: você possui 2 cartas de paus e na mesa temos outras duas cartas deste naipe. Sabendo que cada naipe possui 13 cartas, ainda há no baralho outras 9 cartas de paus que podem fazer seu jogo evoluir para um flush. Detalhe: quando fizer estes cálculos, sempre desconsidere a possibilidade de outros jogadores possuírem cartas de paus.
Exemplo mais complexo: você tem A♠ Q♠ e seu adversário tem K♥ 2♦, no flop veio K♠ T♥ 6♠ (como se trata de um exemplo eu revelei todas as cartas). O vilão já tem par de K. Quantos outs você tem para melhorar seu jogo?
qualquer J te dá uma sequência – 4 cartas;
qualquer carta de espadas te dá um flush – 9 cartas;
qualquer A te dá um overpair – 3 cartas.
No total temos 16 outs, certo?
ERRADO! São apenas 15 outs, porque contamos uma carta 2 vezes – J♠, para ser mais específico.
Também há outro conceito, o de odds: eles expressam uma relação entre duas grandezas, de maneira a verificarmos a proporção entre elas. Complicou? Voltemos ao exemplo dos 15 outs: são 52 cartas no baralho, no flop você tem conhecimento de apenas 5 (suas 2 hole cards e as 3 comunitárias). A probabilidade de você melhorar seu jogo é de 15/47 (outs divididos pelas cartas restantes. Note que mesmo outros adversários estando na mão, suas cartas entram na conta.), ou aproximadamente 31,9%.
Para usarmos a notação usual de outs, proceda da seguinte maneira:
Subtraia os outs das cartas restantes. No nosso caso: 47 – 15 = 32;
Disponha este resultado e os outs em notação de proporção, 32:15;
Divida tudo pelos outs, 32 ÷ 15 ≅ 2,1 e 15 ÷ 15 = 1
Ou seja, os odds são de 2,1 para 1 (2,1:1). O uso dos odds é simples: eles indicam o número de vezes que você ganha com determinado jogo. Com odds em 2,1:1, você ganha uma mão a cada 3,1 jogadas.
Mas para que queremos saber disso?
Para compararmos com outra proporção importante: os pot odds, que nada mais é que a proporção entre quanto você precisa pagar numa aposta em relação ao total já apostado. Se num pot já temos 3000 em fichas e você precisa pagar 1000 para continuar no jogo, os pot odds são de 3 para 1 – 3:1, fazendo as simplificações.
A comparação dos odds com os pot odds te dá uma indicação se vale ou não a pena pagar uma aposta. No exemplo dado, os pot odds são maiores que seus odds, o que torna o call lucrativo.
No próximo post darei um exemplo que ocorreu num torneio na Inglaterra, mostrando como esses cálculos podem justificar jogadas que parecem ruins à uma primeira vista.
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